Lixo, circo, brasileiros x gringos, nostalgia: o que deu certo e o que deu errado no Rock in Rio 2019.

Lixo, circo, brasileiros x gringos, nostalgia: o que deu certo e o que deu errado no Rock in Rio 2019.

Quando Matthew Bellamy e o resto do Muse deixaram o Palco Mundo na madrugada entre este domingo (6) e esta segunda-feira (7), a programação principal do Rock in Rio 2019 teve fim. Com um total de sete dias de shows e outras atrações, o festival conseguiu mais um resultado positivo, com apresentações grandiosas e circenses e muita nostalgia, mas deu algumas escorregadas.

DEU CERTO:

Os dois melhores shows da edição 2019 foram também os mais espalhafatosos. Iron Maiden, na sexta-feira (4), e Pink, no sábado (5), montaram grandes espetáculos com direito a troca de cenários, piruetas, a reprodução de um avião no palco do primeiro e um vôo sobre a plateia para a segunda. Às vezes tais recursos podem parecer muletas, mas as duas atrações souberam se aproveitar do circo para envolver completamente seus fãs.

Pode parecer esquisito, mas quem acompanhou todos os shows do festival sabe: Nirvana e Queen foram as duas bandas mais celebradas do Rock in Rio 2019. Os dois grupos icônicos do rock estiveram presentes através de diversas homenagens e covers de atrações. O primeiro foi lembrado através dos shows de Weezer e Tenacious D, com participação do brasileiro Júnior Bass Groovador. Já Freddie Mercury e companhia "participaram" de apresentações de Foo FightersAlokPink Panic! at the disco.

A área que substitui o antigo Palco Eletrônica mais que dobrou de espaço e foi muito elogiado pelo público, que o consideraram confortável e bonito. Teve até gente que trocou grande parte do tempo das atrações principais pela programação do espaço.

O revezamento entre palcos Sunset e Mundo funcionou muito bem, e suas localizações facilitaram o deslocamento do público entre shows. Tirando algumas pequenas exceções, todos os shows começaram no horário ou com um pequeno e tolerável atraso. Os únicos fora da regra foram Seal, que chegou a ter o som cortado no final de sua apresentação, e Charlie Puth, que enfrentou problemas técnicos antes do seu horário.

Antes deixados meio de lado na programação, funk e rap receberam arranjos de honra nesta edição. Mesmo que em horários menos nobres, os shows do Hip Hop Hurricane com a Nova Orquestra e da Funk Orquestra com nomes do gênero como Buchecha e Ludmilla reuniram grandes públicos e animaram quem estava no Palco Sunset.

Não foi só com orquestras que gêneros antes marginalizados brilharam. Além de funk e rap, o samba com Alcione e Iza e o axé de Ivete Sangalo foram grandes destaques na programação e sucesso com o público da Cidade do Rock. Vale o investimento em atrações do gênero nas próximas edições.

O segundo fim de semana do Rock in Rio 2019 foi marcado por demonstrações genuínas do amor LGBT. No sábado, um jovem fã pediu o namorado em casamento durante o show de Pink, recebeu a bênção da cantora e emocionou o público. No domingo, foi a vez de Lulu Santos reforçar o amor pelo marido na plateia e derrubar algumas lágrimas ao falar, ao lado de Silva, sobre a experiência de declarar ser gay para o público.

Com exceção do primeiro dia, em que fãs enfrentaram longos percursos, protestos e aperto em ônibus do BRT, o transporte público funcionou. As viagens tiveram duração regular e a integração entre BRT e o metrô aconteceu sem problemas graves.

 

 

DEU ERRADO:

Na teoria, o Palco Sunset é destinado a reuniões de artistas. Mas muitas das apresentações tiveram encontros com pouquíssima interação. Em shows como os de Lulu Santos com Silva e Projota, Vitão e Giulia Be, os artistas se encontraram no palco por poucos minutos.

Muitos dos que foram ao festival em carros de aplicativos reclamaram da distância entre os pontos de embarque e desembarque e as entradas e saídas da Cidade do Rock. Nesses locais, longas filas se formaram ao fim de cada dia de festival.

Algumas atrações foram mal posicionadas na programação e acabaram prejudicadas, apesar de bons shows. King Crimson, banda escolhida pra encerrar o Palco Sunset, tocou entre duas atrações explosivas do Palco Mundo: Nickelback e Imagine Dragons. Resultado: a plateia ficou vazia.

Casos parecidos foram os de H.E.R., com um show suave após o furacão de Anitta, e Ellie Goulding, escolhida pra substituir Cardi B, mas sem apelo para os fãs de Drake, que cantou logo depois.

O show de Ivete foi um bom exemplo de como alguns brasileiros mereciam horários mais nobres na programação. A cantora poderia ter se apresentado depois do Goo Goo Dolls. Assim como CPM 22 + Raimundos se encaixaria muito bem após o show de Tenacious D, pelo menos de acordo com a reação dos públicos.

Anitta cantar antes de H.E.R. (talentosa, mas pouco conhecida por aqui) também foi um absurdo. É preciso que a organização repense esse dogma de, naturalmente, menosprezar brasileiros. Anitta, aliás, reclamou que não conseguiu passar som. Foi a única atração do Palco Mundo sem chance de ensaiar "pra valer".

Pilhas de lixo podiam ser vistas em vários lugares da Cidade do Rock em quase todas as noites. Inclusive perto de lixeiras, como era o caso do Palco Sunset, mesmo após o último show. No primeiro fim de semana de Rock in Rio 2019, a Comlurb recolheu 162,2 toneladas de resíduos. Foram 15 toneladas menos do que o recolhido no primeiro fim de semana da última edição.

As reclamações da potência do som no Sunset foram comuns. Era difícil ouvir as atrações do espaço secundário de shows do festival, como no caso do Anthrax. Quem ficava mais ao fundo do público tinha problemas. Apenas uma teve volume aprovado pela maioria dos fãs: o Slayer, que fechou o Dia do Metal.

Poucas pessoas andavam pelo público aptas para dar informações sobre o festival, por isso, era comum que muita gente nem soubesse para que serviram as longas filas. Para piorar, as placas sinalizando os lugares de comida e banheiros eram poucas, levando em conta que se trata de um espaço tão grande.

A empresa responsável pelos trabalhadores encontrados dormindo embaixo do Palco Sunset terá que pagar uma multa de R$ 30 mil ao Ministério Público do Trabalho. Os funcionários da empresa Entreartes trabalham carregando equipamentos e instrumentos musicais das atrações do evento.