Depois de dois meses de aulas suspensas, alunos de escolas públicas do RS têm problemas para manter estudos online

Depois de dois meses de aulas suspensas, alunos de escolas públicas do RS têm problemas para manter estudos online


Mesmo com as iniciativas das escolas para que estudantes não fiquem sem atividades, muitos ainda não conseguem acompanhar os conteúdos por falta de acesso à internet. Alunos da rede pública do RS têm dificuldades de manter estudos online durante pandemia Sem aulas presenciais há dois meses no Rio Grande do Sul devido à pandemia do novo coronavírus, as escolas tiveram que desenvolver iniciativas para que os alunos não fiquem sem atividades. Mesmo assim, muitos estudantes não conseguem acompanhar os conteúdos por falta de acesso à internet. O G1 conversou com professores, pais e alunos que relatam incertezas sobre como serão as avaliações e a recuperação dos conteúdos. As aulas na rede estadual foram suspensas no dia 19 de março. A partir da data da suspensão, até o dia 30 de abril, a Secretaria Estadual de Educação promoveu aulas programadas. Segundo a Seduc, diversos recursos foram utilizados pelos professores, desde a distribuição presencial de tarefas e materiais didáticos aos pais ou responsáveis, para quem não tem acesso à internet, até a utilização de plataformas digitais e rede sociais, como Facebook e WhatsApp, aplicativos, blogs e jogos interativos. O recesso escolar, que estava previsto para o mês de julho, foi antecipado para a primeira quinzena de maio. As férias chegaram ao fim na terça-feira (19), e as aulas online permanecem suspensas até o dia 29 de maio, sem previsão de envio de atividades aos alunos. A Secretaria Estadual de Educação informou que protocolos estão sendo criados e devem ser implementados nas escolas quando as aulas voltarem a acontecer presencialmente, mas ainda não há uma data para isso acontecer. Professora Nádila Albuquerque Luchini com os alunos antes da pandemia Aline Pozzer/arquivo pessoal Conteúdos pelo Whatsapp A professora Fabiane Maciel Viecilli, que trabalha dando aulas de história, filosofia e sociologia no Colégio Estadual Carlos Fagundes de Mello, na Zona Norte de Porto Alegre, conta que os educadores enviam as atividades semanais por WhatsApp para duas pessoas da vice-direção e elas encaminham para os pais e alunos. "Foi definido, pela escola, que as atividades valerão também como presença, mas só serão entregues no retorno das aulas. As dúvidas fazem o caminho inverso. Aluno não entendeu, passa para as vices e elas nos repassam. Trem complicado", afirma Fabiane. Professora Fabiane Maciel Viecilli trabalha dando aulas de história, filosofia e sociologia no Colégio Estadual Carlos Fagundes de Mello Arquivo pessoal Fabiane, que leciona numa região bastante carente da Capital, conta que a escola sofre de problemas de infraestrutura. "Tem o problema da violência, ligada diretamente ao tráfico de drogas. Naquele contexto, a escola serve também para sociabilidade, visto que não tem locais para os jovens se encontrarem em segurança". "Nossos alunos têm pouco ou nenhum acesso à internet fora dos celulares pré-pagos. E a nossa escola é a única da Vila Farrapos com ensino médio", afirma a professora. O professor de história Rafael Gonçalves, que dá aula para o ensino fundamental no Colégio Estadual Francisco Antônio Vieira Caldas Júnior, na Zona Leste da Capital, disse que, no início, foram entregues materiais físicos, tipo apostilas, aos alunos. Mas nem todos conseguiram buscar na escola. "Naquela primeira segunda-feira de suspensão, muitos pais foram buscar na escola, mas aí os pais que não pegaram na segunda, na terça a escola já estava fechada. [Colocamos] na página do Facebook. Provavelmente, a maioria tem rede social, muitos baixam as atividade para o próprio celular. Poucos têm computador, impressora nem se fala, mas a gente conta com aquela coisa, de quem tem ajudar quem não tem", explica Rafael. Professor Rafael Gonçalves dá aula de história para o ensino fundamental no Colégio Estadual Francisco Antônio Vieira Caldas Júnior Arquivo pessoal Segundo o professor, em abril um novo bloco de material foi feito e disponibilizado no Facebook da escola. "Quem tem oportunidade, possibilidade, baixa o material, lê, vê, faz [as atividades]. Quem não tem a oportunidade, vai ficar para o retorno. Na verdade, tudo vai ficar para o retorno. Era uma medida porque a gente não sabia quanto tempo ia durar, para evitar de entrar o ano de 2021 com calendário de 2020 ainda", conta. A professora Tatiana Ricaldi, que dá aulas na Estadual de Ensino Fundamental Alfredo Clemente Pinto, em Novo Hamburgo, na Região Metropolitana de Porto Alegre, conta que a maioria dos alunos é carente, não tem acesso à internet e nem material tecnológico para fazer as atividades remotas. "Os recursos que foram utilizados são ensino remoto, para quem tem internet, e entrega de material físico na escola, ligando para a casa dos pais dos alunos. A escola não utiliza a plataforma Classroom". "Para a realidade dos nossos alunos, a maioria não tem acesso à internet e muito menos um celular para fazer as suas atividades", conta. A professora relatou que, por enquanto, o estado não adotou nenhuma plataforma. A correção das tarefas seria realizada na volta às aulas. Mas, como foi prorrogada a suspensão das aulas presenciais, os educadores estão aguardando as orientações da Seduc. A estudante Luísa Netto, de 17 anos, que cursa o 3º ano do ensino médio na Escola Estadual de Educação Básica Presidente Roosevelt, em Porto Alegre, tem tido acesso aos conteúdos pelo aplicativo Classroom. Segundo a aluna, o conteúdo é passado em forma de PDF ou até mesmo em vídeo aulas. São enviadas de cinco a 10 atividades, normalmente. "Eu não tive nenhuma dificuldade para realizar as atividades, porque tenho acesso à internet, impressora, enfim, todos os meios que me auxiliam na realização delas. Sei que essa não é uma realidade da maioria dos meus colegas. Inclusive, um deles tem deficiência, e quando entrei em contato com ele, ele me disse que não estava tendo acesso aos códigos para entrar no ClassRoom porque não tinha WhatsApp", conta. Luísa Netto, de 17 anos, cursa o 3º ano do ensino médio Arquivo pessoal Luísa relatou ainda que os trabalhos que valem nota só devem ser entregues quando as aulas retornarem. E não foi informado nada quanto ao controle de presença. A bióloga Amanda Domingues é mãe da Alice, de 6 anos, e do Ignácio, de 5. Segundo ela, a escola pública estadual em que a menina estuda oferece material impresso e um blog, onde são disponibilizadas as atividades. No entanto, os pais optaram por um método que denominado “educação afetiva”. “Compramos um caderno e estamos desenvolvendo as letras, o alfabeto, a leitura. Compramos livros, ensinamos as sílabas, os números, caça às letras. Ela tem que ler a palavra e fazer o desenho relacionado. Tem sido uma maneira interessante de realizar uma troca”, destaca. Como os irmãos têm uma diferença pequena de idade, um auxilia o outro. Ignácio corre com a irmã e faz as “aulas” de Educação Física no terraço do prédio onde moram. Ao mesmo tempo, ele tem a curiosidade estimulada por Alice a perguntar sobre números e letras. “É importante que a gente não pressione mais. Se a gente já se sente pressionado com o trabalho em casa, que não se sinta, como pais, pressionados em ser responsáveis por cuidar da casa, do almoço e da educação das crianças”, relata. Amanda Domingues é mãe da Alice, de 6 anos, e do Ignácio, de 5 Arquivo pessoal Rede municipal de Porto Alegre A Prefeitura de Porto Alegre informou que a rede municipal ainda não tem atividades remotas para o ensino fundamental, e nem para a educação infantil. E não há previsão para aulas EAD. O município acrescentou que não tem previsão de retorno das aulas, e não sabe como será a reposição de carga horária. A professora Nádila Albuquerque Luchini, dá aula para o 3º ano do ensino fundamental na EMEF Nossa Senhora De Fátima. Todos os recursos utilizados pela instituição são tecnológicos. Ela criou um grupo no Facebook para passar as atividades aos alunos. "Não há aulas transmitidas ao vivo. Alguns professores gravam vídeos diversos, com contação de histórias, explicações dos conteúdos, ou até mesmo, usam vídeos já existentes no Youtube. Não há plataformas indicadas pela Secretaria Municipal de Educação. Ela conta que as atividades tentam contemplar a carga horária presencial. "Enviamos atividades calculando o tempo de realização para as mesmas. Além das atividades, enviamos material de apoio e vídeos para assistirem na complementação dos estudos. No município, as aulas hora são divididas em períodos, eu como professora referência tenho 17 períodos de aula semanais. Então público pelo menos 5 atividades, sendo uma por dia. Para controlar a presença, pedimos nos grupo do Facebook, que ao entrar, os pais/alunos se identifiquem. E também pedimos para postar as atividades realizadas nos comentários, assim verificamos quem está acessando", afirma. A professora relata que, para os alunos que não tem acesso à internet, infelizmente, a escola não tem dado atendimento, no momento, porque está fechada. "Então não há como buscar material físico, pelo menos na nossa escola está funcionando assim. Não estamos realizando provas, nem oral, nem escrita. Nenhuma forma de avaliação está sendo aplicada no momento".